Myrian Dauelsberg revisita trajetória da Dellarte e destaca desafios da produção cultural no Brasil

Aos 91 anos, produtora cultural relembra mais de quatro décadas dedicadas à circulação de grandes artistas internacionais e à formação de público para a música de concerto
Publicado em 31 de julho de 2026

Levar ao Brasil alguns dos maiores nomes da música clássica, da dança e das artes cênicas internacionais parecia, durante muito tempo, um desafio impossível. Foi justamente esse cenário que motivou a produtora cultural Myrian Dauelsberg a construir uma trajetória que ajudou a transformar a circulação de espetáculos internacionais no país.

Fundadora da Dellarte, empresa criada em 1982, Myrian compartilhou, ao lado do filho Steffen Dauelsberg, atual CEO da companhia, lembranças de sua carreira em entrevista concedida ao Valor Econômico. No encontro, os dois relembram momentos marcantes da história da empresa e analisam as mudanças enfrentadas pelo setor cultural ao longo das últimas décadas.

Quatro décadas de produção cultural

Desde sua criação, a Dellarte tornou-se uma das principais produtoras culturais da América Latina, promovendo temporadas de companhias de dança, concertos sinfônicos, óperas e espetáculos internacionais que marcaram a história cultural brasileira.

Ao longo desse percurso, passaram pelos palcos organizados pela empresa artistas e grupos como os balés Kirov e Bolshoi, os tenores Luciano Pavarotti e José Carreras, o violoncelista Mstislav Rostropovich, a soprano Jessye Norman, além de importantes orquestras, coros e companhias internacionais.

A atuação da Dellarte também abriu caminho para intercâmbios culturais com países como a antiga União Soviética e, posteriormente, a China, ampliando a presença de produções estrangeiras no circuito brasileiro.

Cultura como investimento de longo prazo

Na entrevista, Myrian destaca que sua atuação sempre esteve ligada à formação de público e ao fortalecimento da música de concerto no Brasil. Antes de fundar a Dellarte, ela foi diretora artística da Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, experiência que consolidou sua visão sobre a importância da democratização do acesso às artes.

Essa perspectiva continua orientando o trabalho da empresa, que hoje desenvolve projetos de circulação artística, ações educativas e iniciativas voltadas à preservação do patrimônio cultural.

Uma nova geração à frente da empresa

Economista de formação, Steffen Dauelsberg ingressou na Dellarte após atuar no mercado financeiro. Atualmente, lidera a empresa mantendo a proposta iniciada por sua mãe, mas ampliando sua atuação para áreas como projetos educacionais, revitalização de espaços históricos e desenvolvimento de novos modelos de produção cultural.

Segundo ele, produzir grandes espetáculos internacionais tornou-se uma atividade mais complexa, principalmente em razão dos custos logísticos e da necessidade de ampliar as parcerias institucionais e os mecanismos de financiamento.

Atuação segue conectando o Brasil ao cenário internacional

Mesmo diante das transformações do setor cultural, a Dellarte continua promovendo intercâmbios entre o Brasil e outros países. Em 2026, a empresa integra a programação do Ano Cultural Brasil-China, realizando turnês de importantes grupos chineses, como a Companhia Nacional da Ópera de Pequim e a Orquestra Chinesa de Xangai, reforçando seu papel na circulação internacional de produções artísticas.

Mais de quatro décadas após sua fundação, a Dellarte segue como uma das principais referências da produção cultural brasileira, mantendo vivo o propósito que marcou sua história: aproximar o público de grandes experiências artísticas e ampliar o acesso à cultura.

Fonte: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2026/07/31/a-historia-da-pioneira-produtora-cultural-que-trouxe-artistas-impossiveis-ao-brasil.ghtml