
Durante anos, o debate sobre o fomento à cultura no Brasil foi sequestrado por narrativas que tratavam o investimento artístico como “gasto a fundo perdido”. Nesta semana, porém, a matemática entrou em cena para encerrar a discussão. Um estudo robusto apresentado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) nesta terça-feira (13) comprovou que a Lei Rouanet não é apenas um mecanismo cultural, mas um motor econômico de alta eficiência: para cada R$ 1,00 investido via renúncia fiscal, a economia brasileira recebe de volta impressionantes R$ 7,59.
A pesquisa, encomendada pelo Ministério da Cultura (MinC), desenha o retrato de uma “indústria invisível” que, em 2024, movimentou R$ 25,7 bilhões. Mais do que financiar espetáculos, a lei irriga uma cadeia produtiva complexa — que vai do eletricista ao contador, do transporte à hotelaria —, gerando 230 mil postos de trabalho em um único ano.
O Efeito Multiplicador e a “Desmonização”
O estudo chega em um momento crucial para o setor. Segundo a Ministra da Cultura, Margareth Menezes, os dados servem como antídoto contra a “tentativa de demonização” sofrida pelo mecanismo nos últimos anos. “Faltavam dados robustos e atualizados. O que apresentamos hoje são evidências claras: o investimento cultural gera riqueza, emprego e retorno tributário”, afirmou a ministra.
A FGV analisou o conceito de “ondas de gastos”. O dinheiro da Rouanet não para no artista. Ele circula. O levantamento mostrou que os projetos geraram 567 mil pagamentos a fornecedores. Desses, 96,9% foram valores abaixo de R$ 25 mil, o que comprova um poderoso efeito de pulverização e distribuição de renda na base da pirâmide econômica.
O Nordeste como Protagonista do Crescimento
Um dos dados mais surpreendentes do relatório é a descentralização geográfica, historicamente o “calcanhar de Aquiles” da lei. Embora o Sudeste ainda concentre o maior volume financeiro (R$ 18 bilhões), o crescimento percentual de projetos no Nordeste e no Norte foi avassalador.
No comparativo entre 2018 e 2024, a região Nordeste registrou um salto superior a 400% no número de projetos aprovados, saindo de 337 para 1.778. A Região Norte seguiu o mesmo ritmo. Isso reflete um esforço ativo de busca por proponentes fora do eixo Rio-São Paulo, com parcerias estratégicas para qualificar produtores locais.
“Nosso esforço está se voltando para empresas médias que têm sede nestes territórios”, explicou Henilton Menezes, secretário de Fomento Cultural, citando parcerias com o Sistema S para capacitar o mercado nordestino.
Eficiência na Gestão
Outro ponto que chama a atenção é a desburocratização da máquina pública. O tempo de análise de um projeto, que ultrapassava os 100 dias em 2022, caiu drasticamente para uma média de 35 dias em 2025. Essa agilidade permitiu que o número de projetos apoiados saltasse de 2.600 para mais de 14 mil por ano entre 2022 e 2024.
O custo para gerar um emprego via cultura também se mostrou competitivo: cerca de R$ 12,3 mil por vaga. Em um cenário de recuperação econômica, a cultura prova ser um dos investimentos mais baratos e rentáveis para a geração de ocupação e renda.
Com a Rouanet devidamente “auditada” pela FGV, o Ministério da Cultura já mira o próximo passo: uma pesquisa similar para mensurar o impacto da Lei Aldir Blanc, consolidando a visão de que a cultura no Brasil é, antes de tudo, desenvolvimento socioeconômico.











