
A arte visual da Bahia ultrapassa fronteiras e consolida sua presença na América Latina neste início de 2026. O fotógrafo documental André Fernandes, reconhecido internacionalmente por seu olhar sensível sobre as religiões de matriz africana, inaugurou em Assunção, no Paraguai, a série inédita ‘Ounjẹ Òrìṣà: Comida de Orixá (2025)’. A exposição, sediada no Instituto Guimarães Rosa, tornou-se um fenômeno cultural na capital vizinha, atraindo mais de 1,3 mil visitantes em apenas uma noite para conferir um mergulho estético nos sabores que alimentam o sagrado.
O novo ensaio reúne dezesseis obras que dialogam diretamente com a aclamada série “Orixás” (2014) — trabalho anterior que rendeu a Fernandes o prêmio do “Concurso Internacional de Arte para Artistas Minoritários” da ONU. Desta vez, no entanto, o foco se desloca da figura humana para o ritual da mesa. Elementos fundamentais da culinária afro-brasileira, como dendê, milho, feijão, inhame e coco, são retratados não apenas como sustento, mas como ferramentas de comunicação espiritual e manutenção da ancestralidade.
Cozinhar é Rezar com as Mãos
A construção das imagens de ‘Ounjẹ Òrìṣà’ é resultado de uma imersão profunda na liturgia do Candomblé, fruto da vivência do fotógrafo no Terreiro Ilê Axé Alaketu, na Bahia. Para garantir a fidelidade ritualística, a produção dos pratos contou com a direção de Tata ria Nkisi Douglas Santana.
Cada fotografia é uma composição complexa que une o alimento a elementos simbólicos como búzios, guias, folhas e metais, permitindo ao espectador identificar a qual divindade aquele prato pertence — seja o dendê fervente de Exu ou as frutas de Oxum. “Nos terreiros, cozinhar é rezar com as mãos. É através dos alimentos que se reverenciam os Orixás e que se expressam os fundamentos da religião”, explica André Fernandes.


Combate à Intolerância pela Estética
A curadoria da mostra, assinada por Mai Katz, reforça o caráter político da exposição. Ao elevar a “comida de santo” ao status de obra de arte em um circuito internacional, o projeto combate estigmas e a intolerância religiosa. Katz pontua que muitos desconhecem a origem sagrada de alimentos que já estão integrados ao cotidiano.
A exposição, que conta com patrocínio da Itaipu Binacional, Fundação Itaú e Eurofarma, segue em cartaz no Paraguai até o dia 30 de março de 2026. O sucesso em solo sul-americano é apenas o começo da nova temporada internacional de Fernandes: a série original ‘Orixás’ já tem previsão de desembarcar na Europa em agosto deste ano, ampliando ainda mais o alcance da diáspora africana através da lente baiana.
Para visitar a mostra em Assunção, o público deve realizar agendamento prévio através das redes sociais do Instituto Guimarães Rosa.











